Primeiro filme rodado na Amazônia passou quase um século desaparecido antes de ser recuperado


Quando o filme ficou pronto, em 1920, Silvino Santos encarregou um procurador de promover o longa-metragem na Europa. Pesquisadores descobriram que ele enganou o cineasta e passou a se apresentar como autor do filme. Primeiro filme rodado na Amazônia passou quase um século desaparecido antes de ser recuperado
Jornal Nacional/Reprodução
O primeiro filme rodado na Amazônia passou quase um século desaparecido antes de ser recuperado há poucos meses do outro lado do oceano.
Amazonas – um dos maiores rios do mundo – é o protagonista desta relíquia do cinema mudo brasileiro. O primeiro longa-metragem produzido na Amazônia nunca foi exibido no Brasil. Silvino Santos, um português radicado em Manaus, começou as filmagens em 1918.
“Um dos cineastas pioneiros em se filmar a Amazônia e é um dos cineastas mais reconhecidos desse período na história do cinema brasileiro”, diz Sávio, pesquisador da UFPA.
Em dois anos, o cineasta registrou a cultura, o cotidiano e a biodiversidade amazônica. Como a comercialização de produtos da floresta no mercado do ver o peso, em Belém.
O cineasta acompanhou a coleta de castanha, a produção de pirarucu e a pesca de peixe-boi – hoje, espécie ameaçada de extinção. O longa também mostra a Ilha do Marajó e a relação dos indígenas peruanos com a natureza. E, em Manaus, a imponência do Teatro Amazonas.
Quando o filme ficou pronto, em 1920, Silvino Santos encarregou um procurador de promover o longa-metragem na Europa. Mas pesquisadores descobriram que ele enganou o cineasta e passou a se apresentar como autor do filme. O longa-metragem foi vendido ilegalmente, recebeu até outro nome: “As Maravilhas do Amazonas” – e fez muito sucesso.
“A gente tem notícia que esse filme foi vendido para a Gaumont, que é uma distribuidora francesa e, a partir desse momento, esse filme começa a passar e ser exibido em diversos países, na França, na Itália, na Tchecoslováquia, na Espanha, na Inglaterra também, por quase uma década”, conta Sávio.
Klára Trsková trabalha na curadoria da Cinemateca de Praga, na República Tcheca. Era no acervo que estava a obra perdida de Silvino Santos. Por aqui, achavam que se tratava de um filme norte-americano.
“A minha colega Ivona ela é especialista no cinema mudo e ela viu que a estética dos filmes norte-americanos dos anos 20 não correspondia a este filme”, diz Klára.
A Cinemateca pediu ajuda de um curador italiano. Jay Weisseberg entrou em contato com o professor Sávio, no Brasil, e a verdade veio à tona, em 2023.
“Eu comecei a pesquisar e localizar documentos importantes, fotográficos, textuais, do que foi esse filme e dessa circulação na Europa. E foram esses documentos que permitiram essa identificação dessa cópia que foi achada na Cinemateca Tcheca”, conta Sávio.
O festival de cinema mudo Pordenone, na Itália, exibiu o filme e homenageou Silvino Santos. Pela primeira vez, o longa foi apresentado com o título original: Amazonas – o Maior Rio do Mundo.
“Foi realmente uma experiência impressionante e maravilhosa para mim se conectar com um filme tão importante para o Brasil”, diz o curador italiano Jay Weissberg.
“Todas essas imagens elas são um documento e têm um valor muito grande para a gente se compreender outras épocas e para a gente pensar também o nosso tempo. Que avanços a gente teve em termos de proteção da natureza, de relação com povos originários, é um documento muito importante para a gente pensar sobre essas diferenças entre as épocas”, diz Sávio Stocco.
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