Prefeitura diz que dono deve decidir sobre corte de Sumaúmas, mas afirma que autorização está vencida


Secretário Municipal de Meio Ambiente atribui responsabilidade sobre três Sumaúmas de 50 anos ao proprietário do terreno onde elas estão porque, segundo ele, trata-se de um espaço particular. Sumaúma
Caíque Rodrigues/g1 RR
O parecer da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) que concordava com laudo pericial sobre a derrubada de três Sumaúmas de 50 anos em Boa Vista está vencido, informou nesta quarta-feira (22) a prefeitura de Boa Vista. As gigantes da Amazônia ficam no terreno do Centro Espírita Estrela do Oriente – eles que pediram a derrubada.
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Com a repercussão do assunto após reportagem do g1, o secretário titular da Semma, Alexandre Santos, afirmou em entrevista à reportagem que, neste caso, como as árvores estão dentro de propriedade privada e não aparecem na lista de ameaçadas de extinção, a responsabilidade sobre elas é do proprietário do terreno – mesmo anteriormente a prefeitura tendo dado o aval, com base no laudo.
Segundo o secretário, em maio deste ano o responsável pelo Centro Espírita solicitou uma vistoria sobre a derrubada das árvores. Naquela ocasião, fiscais da Semma negaram. Porém, em uma segunda visita, o proprietário apresentou um laudo que indicava riscos aos arredores e a prefeitura teve de “concordar”.
“Dentro de um laudo técnico, de um especialista que avalia a toda a estrutura fisiológica da árvore que que vai dizer né pra gente com mais eficiência, com propriedades se a árvore está atendendo a cair ou derrubar algum galho ou está oferecendo algum risco à vida humana ou as edificações que estão ao redor a gente não pode ir contra esse laudo. A gente só pode concordar, na verdade”, defendeu o secretário.
Mesmo a secretaria tendo dado o parecer favorável ao laudo, o secretário atribuiu ao proprietário a decisão sobre o futuro das três Sumaúmas. “A gente não tem nada a ver com a propriedade privada do cidadão, ou com o corte, com que ele vai fazer com a árvore”.
“Agora, está tudo vencido. Ele não tem mais nenhum tipo de compromisso com a gente. Ele não retirou a árvore, a autorização dele expirou. Então, não existe mais autorização. Não existe mais termo de compromisso”, disse Alexandre, acrescentando que o proprietário havia se comprometido a plantar outras três Sumaúmas em outro endereço, como forma de compensar as que ele derrubaria.
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Antes, em nota, a prefeitura havia dito que ao fazer o pedido à Semma, foi apresentado um laudo pericial assinado por um especialista, que avaliou o grau de comprometimento de risco de vida humana e patrimonial em função das condições de localização das três árvores de Sumaúma, por isso foi recomendada “a retirada das árvores”.
As três árvores seguem de pé. Questionado se ainda há o interesse em cortar as árvores, o responsável pelo Centro Espírita disse o caso está com o Departamento Jurídico da Instituição. “No momento, me reservo o direito de não me pronunciar”, afirmou, em mensagem enviada ao g1.
O especialista que assinou o laudo referendado pela prefeitura também foi procurado e deve se manifestar sobre o assunto nesta quinta-feira (23).
Embora a Semma afirme não tem poder de decisão sobre a possível derrubada das árvores, diante da repercussão, o secretário Alexandre Santos disse que deve acompanhar os desdobramentos e até marcar reunião com outros órgãos que tratam sobre questões ambientais.
Sumaúmas estão localizadas no bairro Asa Branca, em Boa Vista
Caíque Rodrigues/g1 RR
“A gente tá pensando em reunir uma equipe técnica, Semma, o especialista que fez o laudo, uma pessoa da Defesa Civil para gente ir até o local e a gente avaliar mais especificamente em conjunto quais são as condições e quais são os impactos que essas árvores podem oferecer”, pontuou.
‘Protegem a gente do calor’
O g1 conversou com o casal de aposentados Francisco e Maria Neuza dos Santos, ambos com 78 anos, que afirmam ter plantado as árvores. Ele moram em frente ao Centro onde as Sumaúmas estão plantadas e disseram estar revoltados e tristes com a possibilidade delas serem derrubadas.
Casal plantou árvores no bairro
Caíque Rodrigues/g1 RR
Eles destacaram o calor intenso que ficará no bairro, já que as gigantes da natureza fazem sombra e refrescam a vizinhança, além do valor emocional.
“Se cortarem a gente vai sentir muita falta delas, elas protegem a gente do calor, agora se tirar ela daqui o cara não vai aguentar com o calor não. Eu prefiro desgalhar elas um pouco do que cortar tudo fora. Tem outras soluções”, diz o vigilante aposentado Francisco dos Santos.
Para Maria Neuza, que afirma ter plantado as três árvores junto do marido, o valor sentimental é o mais precioso. De acordo com a aposentada, ela e o marido vivem no bairro há 60 anos, 50 deles as árvores estavam lá, por isso, faz parte da história do casal.
“Se realmente cortarem essas árvores eu acho que eu vou é chorar. É uma tristeza, você chega aqui, eu arrumei minha casa, ajeitei tudo e de repente tiram algo tão importante, uma coisa que é nossa. Não é brincadeira não. Além disso, o calor vai ser de matar”, diz a aposentada Maria Neuza.
A árvore Sumaúma é considerada uma das mais importantes da Amazônia e chama a atenção de quem a vê. A espécie pode viver mais de 800 anos e chegar a até 70 metros de altura. É uma das árvores mais comuns em áreas de várzea e pode ser encontrada entre os trópicos.
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