Por que (não) fazer psicoterapia ou análise?


Fazer psicoterapia pode ser um caminho para você ampliar as possibilidades de autoconhecimento, a partir da ressignificação da sua história. A melhor questão para convidá-lo a olhar e cuidar da sua saúde mental seria: por que fazer ou não fazer psicoterapia?
Já que, ao falar em saúde mental, o caminho é pela via do singular, do cada um, do se aventurar pelas marcas da própria história em um desbravamento da sua subjetividade, optei por percorrermos as duas trilhas para ampliar as possibilidades de dialogarmos em sintonia.
O “por que não fazer psicoterapia?”, no olhar de muitas pessoas, passa por algumas construções sócio-históricas sobre como se davam os “cuidados” em saúde mental, até há poucas décadas, e que se presentificam, infelizmente, até hoje, em alguns (poucos, espero!) espaços institucionais.
Quem leu o livro “Holocausto Brasileiro” da Daniela Arbex ou “O Capa Branca” de Daniel Navarro Sonim pode compreender os descuidos, desrespeitos e a perda da dignidade pelo qual passavam os pacientes encarcerados nos manicômicos/hospitais psiquiátricos.
São assustadores os critérios considerados de inclusão para porta adentro nestes espaços institucionais, e os tratamentos de sujeitos que se tornavam “coisas” objetificadas, os considerados “anormais” ou “desajustados socialmente”. Entre eles estavam as pessoas com epilepsia, mães cujos pais não assumiram os filhos, algumas mulheres em situação de ter sofrido violência sexual, prostitutas, ou seja, pessoas que estavam à margem e fora de um suposto padrão social.
Felizmente, vieram novos ares de cuidados em liberdade, pelo mundo afora e pelo Brasil, com a proposta antimanicomial, no final do século passado. Temos o SUS (Sistema Único de Saúde), temos os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), temos ambulatórios públicos para a saúde mental em diversos municípios, e o acesso à psicoterapia individual por planos de saúde e particular foi se ampliando.
Entretanto, o fantasma daquele modo de receber “(des)cuidado” psiquiátrico e psicológico segue nos rondando no imaginário coletivo ainda hoje. O significado de deixarmos aparecer sintomas psicológicos e procurarmos cuidados ainda fica atravessado por algo perigoso, ameaçador e que nos coloca em uma extrema fragilidade, nas mãos de um outro. E, nesse sentido, temos uma pergunta enigmática: o que teria de ameaçador um psicólogo, quando o que está em jogo é um sofrimento emocional e psíquico importante?
Diversos estigmas foram construídos socialmente, marcaram e persistiram em se tratando da pessoa, em situação de sofrimento psíquico, atrelados à fraqueza, instabilidade, não ser confiável, incapacidade e não produtividade, em uma sociedade capitalista. Logo, não buscar psicoterapia pode ser uma tentativa de fugir destes rótulos de “incapaz”, “louco” ou “doido”, bem como uma forma de não se haver com as próprias fragilidades. Uma vez que o imperativo social é de felicidade a qualquer preço, como se permitir aos atravessamentos necessários da infelicidade e da angústia que faz parte de cada um de nós? Não nos esqueçamos! O preço de uma felicidade idealizada pode ser a própria infelicidade.
Além disso, no processo de psicoterapia somos convidados a (re)visitar as nossas faltas, doídos, ressignificar os traumas, vindo juntos sentimentos de angústia/ansiedade, sensação de falta de controle, de nos desmontarmos para nos reconstruirmos, de sairmos de lugares familiares, nos desalojarmos, na direção de encontrarmos o nosso lugar e nos responsabilizarmos pela nossa história. Isso muitas vezes gera receios e medos, inclusive de julgamentos do outro. É um desafio imenso darmos conta de entrar neste lugar trazido pelo filósofo Jean-Paul Sartre: “Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim.”
Quanto ao “por que fazer psicoterapia?”, é uma resposta individual, que cada um pode encontrar e é uma escolha. Fazer psicoterapia pode ser um caminho para você ampliar as possibilidades de autoconhecimento, de bem-estar, de qualidade de vida, a partir da ressignificação da sua história pela fala endereçada a um outro, que é o psicoterapeuta ou analista.
Ser escutado e acolhido, sem julgamentos, pode favorecer, você se tornar quem você é e fazer as travessias necessárias e possíveis na direção da sua saúde mental. Assim, fazer psicoterapia é um processo autoral, de escolha e de mais liberdade!
Programa “Psicologia para Todos”:
* O Programa “Psicologia para Todos” surgiu, em 2020, em Curitiba, no UniBrasil Centro Universitário e tem como um dos pilares atender pessoas menos favorecidas e em situação de vulnerabilidade social.
Psicólogos formados nesta instituição atendem a comunidade. Mais informações em: https://conteudo.unibrasil.com.br/psicologiaparatodos
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