Líder comunitário cria ONG para ajudar moradores a acessar serviços públicos


Em parceria com outros voluntários, Emerson Galego fundou a ‘Casa da Comunidade’ para receber os moradores do Iraque. Líder comunitário Emerson Galego atende moradores do Iraque na ‘Casa da Comunidade’
Iris Costa/g1
Há cerca de 30 anos, às margens de um canal, começou a se formar o que hoje é a Comunidade do Iraque, na Zona Oeste do Recife. Inserida entre os bairros Jiquiá, Estância e Areias, o território existe há décadas, na prática, mas a aproximação com o poder público é recente, segundo o líder comunitário Emerson Galego.
Emerson cresceu no Iraque e viu de perto as carências da comunidade, que nasceu da ocupação de um terreno abandonado, assim como tantas outras. Ciente das demandas e desafios do território, começou a se preocupar com os problemas estruturais e ajudar moradores a acessarem serviços básicos.
“A gente não tinha muito o poder público atuando na comunidade. Depois da obra do canal, a comunidade ficou abandonada, na questão de saúde pública, educação, saneamento básico, calçamento de becos… Eu, como morador e criado na comunidade, senti a necessidade de fazer a diferença”, contou o líder comunitário.
O impulso de colaborar fez com que, aos poucos, as ajudas pontuais se transformassem em rotina. A atitude inspirou outros moradores e, há aproximadamente 9 anos, a união deu origem a uma organização não governamental (ONG) hoje chamada de Casa da Comunidade.
“Somos nove voluntários, amamos fazer isso. A gente hoje não se vê mais sem a ONG. Tem todo tipo de serviço. Se acontece uma emergência, a gente faz ofício, aciona as instituições. Quando os órgãos públicos chegam para visitar a comunidade, a gente larga tudo o que está fazendo e vai atrás”, explicou Cláudia Regina, que também atua do projeto.
Além da preocupação com a infraestrutura da comunidade, a Casa da Comunidade surgiu com a proposta de ajudar os moradores a acessarem serviços básicos de cidadania, desde a emissão de documentos e até a solicitação de sepultamento gratuito. Atualmente, a organização também fornece consultoria jurídica e psicológica.
Pelo menos duas vezes por mês, Emerson Galego realiza vistorias na Comunidade do Iraque
Iris Costa/g1
Mercado de trabalho
A psicóloga Eliane Ferreira é uma das voluntárias da iniciativa. Ela trabalha no setor de Recursos Humanos em uma empresa de grande porte e conheceu a ONG quando precisou recrutar, de uma única vez, 30 candidatos. Hoje, ajuda a organização dando suporte para os moradores entrarem no mercado de trabalho.
“Emerson reuniu todo mundo aqui e eu passei um sábado inteiro fazendo recrutamento e seleção. Eu percebi que eles tinham uma carência muito grande quanto a preparação de currículos, como se comportar numa seleção, e aí eu fui dando as orientações. A partir daí iniciou a nossa parceria que já tem cerca de dois anos”, compartilhou a psicóloga.
Um dos beneficiados pelo trabalho de Eliane foi o morador José Francisco, que se mudou para a Comunidade do Iraque há cerca de 5 anos, apenas com uma filha pequena. Ele foi acolhido e conseguiu um emprego formal com a ajuda da ONG. Sempre que pode, tenta retribuir as boas ações que recebeu da comunidade ajudando em pequenas obras (veja vídeo abaixo).
José Francisco foi acolhido pela ONG quando se mudou para a comunidade do Iraque
“Eu cuido da minha filha desde os nove meses, só eu e ela. Quando vim morar aqui, estava desempregado. Aluguei uma casa e só tinha um colchão. O pessoal da ONG que me ajudou. Arrumaram uma televisão para mim, cesta básica, fizeram cotinha, arrumaram emprego para mim. Depois que eu comecei a trabalhar, foi melhorando a minha vida”, compartilhou.
Outro serviço com muita demanda na Casa da Comunidade é o de assessoria jurídica. Pelo menos uma vez por mês o advogado Petrus Galvão vai presencialmente no Iraque para tirar dúvidas da população sobre direitos e como dar entrada em benefícios, por exemplo.
“Eu presto consultoria jurídica e também dou entrada em ações, principalmente na parte de direito de família, benefícios assistenciais e aposentadorias, tanto por invalidez, quanto por idade e tempo de contribuição. […] Eu vejo a condição da pessoa e tento ser o mais acessível possível”, explicou o advogado.
Petrus Galvão presta consultoria jurídica gratuita ao moradores da Comunidade do Iraque
Iris Costa/g1
Regularização fundiária
Uma das principais lutas dos moradores do Iraque é a regularização fundiária do local. Como a comunidade surgiu a partir da ocupação de um terreno desocupado na década de 90, quase a totalidade dos imóveis construídos permanecem, até hoje na irregularidade.
Procurada pela reportagem do g1, a prefeitura do Recife informou que a Zona Especial de Interesse Social (Zeis) Rua do Rio/Iraque será contemplada pelo programa ‘A Casa É Sua’. A iniciativa se trata de uma política municipal de regularização fundiária que pretende beneficiar 50 mil famílias até o final de 2024.
De acordo com a gestão municipal, a localidade foi incluída em um convênio de cooperação assinado, em outubro, pelo prefeito João Campos e a ministra da Gestão e Inovação dos Serviços Públicos, Esther Dweck. O documento permite que a prefeitura realize o processo de regularização fundiária em terrenos da União localizados no município, como é o caso da Comunidade do Iraque.
O g1 perguntou à prefeitura do Recife quantos títulos de possem devem ser entregues especificamente para a Comunidade do Iraque, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
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