Entenda o que é ‘bote seco’, acidente por cobra peçonhenta sem manifestação clínica


Membro da diretoria do instituto explica o que é picada seca e por que ela pode não ser fatal. Segundo Datasus, foram registrados 21.893 acidentes com serpentes peçonhentas em 2022. Bote seco ou picada seca podem dispensar necessidade de soro antiofídico
Gabriel Bonfa / iNaturalist
Você já deve ter assistido a filmes ou documentários na televisão, nos quais você vê uma onça ou um leão caçando. Quando o leão sai à caça da presa, no seu ambiente, ele não acerta todas as vezes que caça.
O predador erra, e esse erro pode ocorrer por muitos fatores: relacionados a ele, à presa ou até às condições ambientais. A lista de variáveis é bem grande, por isso, há o ditado “um dia é da caça, outro, do caçador”.
“A mesma coisa acontece com serpentes peçonhentas, nem todo acidente com serpente peçonhenta leva ao envenenamento. Acidente é uma coisa, envenenamento é outra”, explica Giuseppe Puorto, diretor do Centro de Desenvolvimento Cultural do Instituto Butantan.
Isso porque quando a serpente dá o bote em uma pessoa, algumas situações podem fazer com que não haja envenenamento, ou seja, presença de sintomas clínicos que podem levar à morte. Em uma ocasião de bote seco, o que geralmente ocorre é:
A cobra errou o bote;
A cobra encostou na pessoa e somente arrastou a presa na pele dela;
A cobra inoculou veneno com uma presa apenas e acabou não injetando muito veneno;
A cobra acertou a pessoa com as duas presas, mas por algum motivo, não injetou muito veneno.
Lachesis stenophrys, cobra do gênero surucucu
Nicholas Hess / iNaturalist
Nesse casos nos quais há baixa inoculação de veneno, nosso organismo reage satisfatoriamente contra a substância e a elimina do corpo.
“Então, se juntar essas possibilidades a gente tem o bote seco, que é o acidente ofídico por cobra peçonhenta – identificado, mas sem manifestação clínica. Isso é mais comum do que se imagina”, ressalta Giuseppe, que comenta em seguida sobre a própria experiência com acidentes ofídicos.
“Eu trabalho com serpentes há muitos anos e eu tive 15 acidentes com serpentes peçonhentas na minha carreira de pesquisador. Dos 15 acidentes com serpentes peçonhentas, eu só fui envenenado duas vezes. As outras 13 vezes, foram botes secos”, conta.
Segundo o diretor cultural do Instituto Butantan, no caso do grupo jararaca, a incidência de botes secos sobre o total de acidentes é de cerca de 10%. Para os grupos cascavel, coral e surucucu – os gêneros de cobras peçonhentas presentes no país – não há uma estatística definida sobre picadas secas.
De acordo o Datasus, em 2022, ocorreram 21.893 acidentes com serpentes peçonhentas no Brasil. Desses, 19.044 (87%) foram com jararacas, 2.237 (10,2%) foram com cascavéis, 328 (1,5%) com corais, 284 (1,3%) com surucucus. Entretanto, pode haver subnotificação de casos.
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Ainda conforme o instituto, a falta de informação sobre o botes secos leva a população, muitas vezes, a acreditar em “práticas caseiras” e sem embasamento científico algum. Essas práticas incluem simpatias, benzer o local e outros tipos de saberes populares que não vão funcionar em casos de envenenamento, somente em casos de bote seco.
Diante da suspeita de envenenamento, a orientação do Butantan é procurar um serviço médico de urgência para que se possa fazer o anti-soro, se for necessário.
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