Irmãos cegos se formam em Letras, passam em PSS e trabalham na mesma escola: ‘Dificuldade sempre vamos ter, mas isso não pode impedir a gente’


André e Anderson Rodrigues perderam totalmente a visão por conta de um glaucoma. Há pouco mais de um ano, passaram em um processo seletivo para dar aulas no mesmo colégio. Irmãos perderam a visão quando crianças e hoje são professores no mesmo colégio
Os irmãos André e Anderson Henrique, de Londrina, norte do Paraná, convivem desde crianças com a deficiência visual. Nasceram com glaucoma e perderam a visão, totalmente, aos cinco e sete anos, o que não os impediu de se formarem em uma universidade pública e conseguirem um emprego.
Hoje, são professores na mesma escola. Assista ao vídeo acima.
“Dificuldade sempre vamos ter, mas isso não pode segurar a gente. É isso que tento passar para os alunos”, explicou André.
De acordo com Ministério da Saúde, o glaucoma é provocado pelo aumento da pressão interna do olho e alteração irregular no fluxo de sangue dentro do órgão, podendo causar cegueira.
Os dois concluíram o curso de Letras com Licenciatura em Português na Universidade Estadual de Londrina (UEL) em épocas diferentes: André em 2021 e Anderson no ano seguinte.
Com isso, não demorou para que fossem selecionados no teste seletivo para professores na rede estadual de ensino e começassem a trabalhar no Colégio Estadual Professora Lúcia Barros Lisboa, na zona norte da cidade, onde estão há pouco mais de 1 ano dando aulas de Português e Redação.
“Tínhamos medo de não dar certo, de não conseguir por não enxergar. Na sala de aula a gente mexe com o futuro das pessoas e dava um frio na barriga se seríamos capazes de ensinar o mínimo, se iam nos entender, nos compreender”, disse Anderson.
Incentivo de um, sucesso dos dois
Entre uma aula e outra – hoje eles cumprem 40 horas semanais, jornada máxima de um docente comum do estado.
“Eu quis ser tanta coisa. Me inscrevi para Jornalismo, mas não passei. Resolvi fazer Letras por causa do André, que queria isso desde o começo. Eu percebia que havia material em braile para ele, que eram bens didáticos, e fui junto. Ele me influenciou”, contou Anderson.
Por conta da deficiência visual, os irmãos tiveram que superar as dificuldades estruturais da universidade.
Durante o curso, receberam apoio do Núcleo de Acessibilidade (NAC) da instituição na adaptação dos materiais usados em sala. Mas, segundo os irmãos, a força maior veio dos colegas e da família.
“Quando a gente achava que estava muito difícil, pedíamos ajuda”, lembrou Anderson.
Anderson se formou em Letras e trabalha no mesmo colégio que o irmão
Rafael Machado/g1 Paraná
As dificuldades da adaptação
Selecionados por meio de um Processo Seletivo Simplificado (PSS), os irmãos foram distribuídos para o Colégio Estadual Professora Lúcia Barros Lisboa, com 1.359 alunos, a maioria no Ensino Fundamental.
Eles relembram que o primeiro dia de trabalho não foi fácil.
“No começo a gente se virava sozinho para mexer nas plataformas do governo e dar as aulas. Alguns alunos não respeitavam, saíam no meio da aula. Era algo novo para eles e para nós, mas a situação mudou bastante. Eu estudei em escola pública e sei das dificuldades que eles enfrentam, mas consegui superar esses obstáculos”, afirmou André.
André e Anderson recebem a ajuda de assistentes administrativos para as aulas
Rafael Machado/g1 Paraná
No primeiro semestre deste ano, a direção do colégio conseguiu a cessão de dois assistentes administrativos, que auxiliam os irmãos nas aulas em diversas tarefas, como lançar as notas nos sistemas e monitorar o comportamento dos estudantes.
“Quando eles chegaram, davam aulas para poucas turmas. Esse ano, estão trabalhando com alunos de todas as idades, e daí apareceram as primeiras dificuldades. Solicitamos os dois assistentes, que ajudam, e muito, dentro da sala. Mas é um processo de aprendizagem, tanto pra eles quanto pra gente”, afirmou o vice-diretor do colégio, Edinaldo Facio.
Ensino além da sala de aula
Acostumados a conviver com dificuldades desde cedo, os irmãos traçam planos para o futuro.
André pretender concluir o mestrado iniciado em Literatura na UEL, enquanto Anderson quer se firmar ainda mais na função de professor e, quem sabe, passar em um concurso público da área.
André Henrique é cego e trabalha em uma escola de Londrina (PR)
Rafael Machado/g1 Paraná
Mas os dois acreditam que têm lições maiores a passar aos alunos além daquelas entregues todos os dias na sala de aula.
“Quero passar para eles que eu consegui meus objetivos, mas tive que tentar. Quero mostrar que a gente pode vencer na vida, mas tem que ter a coragem de tentar. Não pode ter medo”, disse André.
“No ano passado, comecei a dar aula no 3º ano. Esses dias, quando caminhava com meus pais, apareceu uma ex-aluna, e ela disse que estava fazendo faculdade. Fiquei feliz porque tinha feito uma coisa boa. Tento incentivar eles a continuar os estudos. Pode ser difícil, mas não pode desistir”, completou Anderson.
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