Invenções da natureza: da origem das plantas à invenção das folhas


Para Luciano Lima, muitas adaptações de seres vivos passam despercebidas por sua aparência comum. No entanto, elas escondem mecanismos e funções impressionantes. Registro contém duas espécies de musgos, as primeiras plantas terrestres do planeta
Lucianos Lima
Você conhece os ancestrais das plantas? Saberia dizer se eles ainda existem? Como coluna das histórias naturais dessa semana, o biólogo Luciano Lima explica como esses seres vivos surgiram, migraram da água para a terra e se adaptaram para se tornarem cada vez mais numerosos e diversos. Segundo ele, a própria folha é uma invenção da natureza feita para melhorar a vida das plantas.
Todo mundo já se pegou sonhando acordado com invenções que ainda não existem. Algumas parecem estar ali na esquina do tempo, prestes a invadir as nossas vidas, como os drones que irão carregar pessoas. Outras parecem impossíveis, mas ainda assim passeiam pelo nosso imaginário, como a máquina do tempo.
Com frequência, também fico pensando em ideias que ainda não foram inventadas, mas, como biólogo, viver atento ao mundo natural me faz também observar “invenções” que, de tão comuns na natureza, passam a falsa ideia de que não precisaram ser desenvolvidas, como se estivessem ali desde sempre. Por exemplo, você já parou para pensar quando as folhas das plantas surgiram?
Se pedirmos para qualquer pessoa descrever uma planta, muito provavelmente a primeira coisa que ela incluiria nessa explicação seriam as folhas. Botanicamente falando, folhas são órgãos das plantas responsáveis pelo processo de fotossíntese.
Assim como animais, a origem das plantas foi na água, há mais ou menos 850 milhões de anos. Algumas das primeiras plantas eram bem parecidas com algas verdes que existem até hoje e incluem os ancestrais de todas as plantas terrestres.
Fósseis de esporos – estruturas reprodutivas utilizadas pelas plantas antes da invenção das sementes – deixam claro que, há 470 milhões de anos, as plantas já estavam bem estabelecidas em terra. Análises genéticas apontam que a conquista da terra por elas ocorreu há cerca de 515 milhões de anos.
Histórias Naturais é a coluna semanal do biólogo Luciano Lima no Terra da Gente
Arte/TG
As primeiras plantas a conquistarem a terra não tinham raízes, nem troncos, tampouco folhas. Se você acha difícil imaginar uma planta terrestre assim, basta ficar atento aos musgos nas ruas. Eles e outras plantas classificadas como briófitas, são os parentes sobreviventes de uma das primeiras linhagens a conquistar a terra.
No entanto, mais de 400 milhões de anos depois, os musgos mudaram pouco na sua aparência. Por conta do tamanho diminuto, as pessoas dão pouca importância aos musgos, mas essas plantas pioneiras possuem desde sua origem um papel importantíssimo para a vida terrestre.
Pouco a pouco, os musgos decompõem as rochas onde costumam se aderir. Por serem um dos primeiros grupos de seres vivos a colonizar o meio terrestre, podem ser considerados os inventores do solo, que é basicamente a mistura de minerais decompostos das rochas com matéria orgânica. Não preciso dizer que, sem solo, a vida na terra seria muito diferente ou simplesmente não existiria.
Em terra, não demorou muito para a evolução presentear as plantas com novas adaptações. Há 420 milhões de anos, um grupo de plantas chamado licófitas inventou as folhas. Você pode nunca ter reparado nelas, também chamadas de licopódios, mas certamente você já cruzou com elas por aí.
Registro fotográfico de uma espécie de licófita
Luciano Lima
Aqui vale abrir um parênteses… É impressionante pensar que quando as folhas das licófitas surgiram, os escorpiões já vagavam pela terra e os ancestrais dos tubarões e raias já nadavam nos oceanos. Ou seja, de certa forma os escorpiões, tubarões e raias foram “inventados” antes das folhas.
As plantas que possuem folhas são muito mais eficientes em realizar a fotossíntese que as plantas sem folhas, não à toa essa invenção se dispersou rapidamente pelos ecossistemas. No entanto, as folhas da grande maioria dos vegetais que existem hoje são diferentes das existentes nas licófitas.
Dentro das folhas das licófitas encontramos apenas uma única nervura central, enquanto as folhas das outras plantas são compostas por um sistema ramificado de nervuras, sendo bem mais eficiente na condução de água e nutrientes.
Hoje, as licófitas que existem hoje são pequenas mas, em um passado distante, esses seres vivos já foram as plantas dominantes no planeta, atingindo até 40 metros de altura.
Milhões de anos de acúmulo de licófitas mortas no solo durante o período Carbonífero – entre 358 e 298 milhões de anos atrás -, somados a existência de poucos organismos capazes de decompor plantas naquela época, resultou em grande parte das reservas de carvão mineral que são exploradas atualmente para produção de energia em termoelétricas.
A máquina do tempo já foi inventada, e ela não é movida a combustível fóssil, mas por olhares atentos. Para viajar no tempo basta abrir os olhos e prestar atenção na natureza ao seu redor.
* Luciano Lima é biólogo e parte da equipe do Terra da Gente
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