Incêndios na Amazônia boliviana que já destruíram vilarejos ameaçam se alastrar para áreas urbanas


Acredita-se que o incêndio tenha começado há quatro meses em uma região chamada de chaco, quando agricultores queimaram a vegetação natural para convertê-la em campos de pecuária e agricultura. Mas com a seca e a falta de chuva, o fogo ficou fora de controle. Incêndio na amazônia boliviana, em 22 de novembro de 2023
Claudia Morales/Reuters
Os incêndios ainda estão ocorrendo na Bolívia e agora ameaçam algumas áreas urbanas. Esse é o caso próximo a Rurrenabaque, no departamento de Beni, a mais de 400 km da capital La Paz. Desde o início do ano, o país perdeu 2,9 milhões de hectares em incêndios florestais.
Nos últimos dias, os incêndios se tornaram mais intensos. Pela primeira vez, casas foram completamente queimadas, apesar da mobilização das comunidades locais na reserva Pilon Lajas. 
Bastou uma única brasa soprada pelo vento para que a propriedade de Albertina Gomez ficasse em chamas na comunidade de Buena Vista, em San Buenaventura. “Esta era minha casa. Poeira, tudo virou poeira”, lamenta.
A jornalista Camille Bouju, enviada especial da RFI em Rurrenabaque, pequeno vilarejo nas profundezas da selva amazônica, na Bolívia, relata cenas comoventes em sua reportagem. Ela descreve com detalhes quatro residências que viu incendiadas: “Cacos de vidro estão espalhados pelo chão. Um ventilador ainda está derretendo. Ao redor, as casas estão desertas. Quarenta e cinco pessoas foram abrigadas em uma escola. As famílias foram embora, mas a fumaça acre persiste. A comunidade também perdeu muitas terras. Campos de cacau e bananas, não sobrou nada”, detalha.
Dario, um fazendeiro da região, se preocupa com seu sustento após ver suas terras queimadas. “Por exemplo, o que eu ia poder colher daqui a alguns meses, não sobrou nada, está tudo queimado, o que vou comer amanhã?”, questiona.
Explicação para as chamas
Acredita-se que o incêndio tenha começado há quatro meses em uma região chamada de chaco, quando agricultores queimaram a vegetação natural para convertê-la em campos de pecuária e agricultura. Mas com a seca e a falta de chuva, o fogo ficou fora de controle.
Do outro lado do rio Beni, a comunidade de Carmen Flora está tentando controlar as chamas. A repórter conta ter navegado “por alguns minutos em meio a uma névoa que irrita a garganta”, antes de chegar às primeiras residências.
“Aqui, as casas são feitas de madeira, bambu e folhas de palmeira secas e, portanto, são facilmente incendiadas”, descreve a jornalista no local. 
Bouju relata ter visto moradores desta população amazônica lutarem com as próprias mãos contra as chamas, usando até mesmo facões para cortar a mata e evitar o alastramento do fogo em uma estrada, assim que avistaram fumaça saindo das árvores, se revezando dia e noite na floresta.
Segundo ela, as vidas cotidianas dos habitantes da cidade de Rurrenabaque são completamente marcadas pelos incêndios. As moradoras Luz e Valéria coletaram doações para comprar alimentos. Nas margens do rio, elas estão espalhando garrafas de água e lanches em várias entradas da selva para ajudar os voluntários a continuarem. “As pessoas estão cansadas, exaustas e com as forças esgotadas”, argumentam. 
“São 21 horas, por favor, precisamos de leite aqui em cima”, Luz recebe essa mensagem enquanto dezenas de pessoas estavam mobilizadas perto de uma casa que era ameaçada pelo fogo. O leite serve para desintoxicar o corpo após inalação de fumaça.
Os voluntários que chegavam para reforçar o combate às chamas não vestiam proteção. Durante semanas, os moradores se sentiram abandonados à própria sorte e pediram ajuda internacional. O governo boliviano tem entrado em contato com outros países, como a França e também com os vizinhos fronteiriços Chile e Brasil, aumentando as esperanças da população local.
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