Do vírus atenuado ao RNA: entenda como funcionam as vacinas e por que tema pode cair no vestibular


Conteúdo apareceu na prova de biologia do Enem 2023 e pode marcar presença na 2ª fase da Unicamp, marcada para 3 e 4 de dezembro. Menina toma gotinha da vacina contra poliomielite em Campinas
Reprodução/EPTV
Nos últimos anos, boa parte do mundo acompanhou a busca por uma vacina eficaz contra a Covid-19. Isso porque o imunizante era a única forma de frear a doença e representava uma esperança de retorno à vida normal. Mas por que um produto de laboratório é tão importante para a nossa saúde? 🤔
A biologia explica e também justifica a presença do tema em questões de grandes vestibulares como o Enem e – quem sabe? – na segunda fase da Unicamp, marcada para os dias 3 e 4 de dezembro. 📝
💉 As vacinas são uma das grandes descobertas da medicina, mas, por si só, não são uma novidade: elas existem há bastante tempo. A primeira vacina registrada do mundo foi criada em 1749, na Inglaterra, para combater a varíola.
Graças ao imunizante criado por Edward Jenner no século XVIII, a doença – que tinha uma taxa de letalidade em torno dos 30% – foi erradicada em todo o planeta. Por isso, como explica o professor de biologia André Bourg, do Curso e Colégio Oficina do Estudante, não é exagero afirmar que devemos uma boa parte da existência humana às vacinas.
“A quantidade de pessoas no Brasil e no mundo é decorrente tanto da aplicação e no mundo é decorrente tanto da aplicação das vacinas quanto da utilização de antibióticos para combater e até erradicar determinadas doenças”, diz Bourg.
Enquanto a varíola castigava principalmente as crianças, Jenner buscava a solução para a vacina em um vírus semelhante que ocorria em vacas
Wellcome Collection. Attribution 4.0 International (CC BY 4.0)
Por definição, as vacinas são produtos biológicos que estimulam a defesa do corpo contra alguns microrganismos que provocam doenças. Calma, vestibulando, nós vamos simplificar tudo isso!
Nesta matéria, você vai ver:
Memória imunológica
Grupos de vacinas
A vacina de RNA
A inovação no RNA
Memória imunológica
Para falar da produção e função das vacinas, é preciso falar do sistema imunológico. E sabe de uma coisa, vestibulando? Até ele precisa se lembrar de algumas coisas para ter um bom desempenho.
Imagine que o sistema imune é um atleta que pratica artes marciais e precisa aprender a se defender dos seus adversários, que querem jogá-lo para fora do ringue.
Neste cenário, as vacinas seriam as treinadoras: apesar de ficarem do lado de fora da luta, são elas que treinam o organismo para se defender de possíveis ameaças. 🦠🧫
Trazendo a analogia para termos mais biológicos, o sistema imunológico consegue reconhecer partículas, vírus, bactérias ou qualquer outro agente que não pertença ao corpo.
Coronavírus: Sistema imunológico está no centro de algumas das questões mais importantes
Getty Images via BBC
A partir desse reconhecimento, o sistema imune consegue desenvolver anticorpos específicos, ou seja, defesas, contra essa galera “estranha”.
🥊 É como se o treinador dissesse para o atleta que o oponente é “casca-grossa” e o ensinasse a se defender contra aquele tipo específico de ataque.
“O mais legal de tudo é que, além de desenvolver o anticorpo, que inibe a infecção, ele também consegue desenvolver células de memória. É por isso que quando tomamos uma vacina ficamos imunizados por muito tempo”, diz o professor de biologia.
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⚠️🧠 Falando em memória, é importante lembrar desta parte: o número de anticorpos não é o responsável por essa imunização a longo prazo. “Em uma segunda infecção, caso um de nós entre em contato com essa doença, as células de memória vão produzir anticorpos de maneira eficiente e muito mais rápida”, explica Bourg.
Em 2023, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) completa 50 anos de existência com histórico de erradicação de doenças como a poliomielite e o sarampo no Brasil.
A iniciativa criada em 1973 também foi essencial para o enfrentamento da Covid-19 no país, já que as vacinas permitem que até quem não contraiu o vírus tenha mecanismos de defesa para combatê-lo, como explica o professor de biologia. 😷
“Muitas vezes, a gente não percebeu que teve contato com a doença. É o caso da Covid: a doença está por aí, mas como a grande maioria da população já está vacinada, o nosso sistema imune reconhece”, diz Bourg.
A vacinação pode ajudar a preparar o sistema imunológico humano para lutar contra os vírus, tornando mais difícil que eles se espalhem
PA via BBC
Grupos de vacinas
Segundo o professor de biologia, hoje existem “quase cinco” grupos de vacinas diferentes. Essa divisão é relacionada ao composto ativo utilizado em sua confecção. Confira abaixo.
Vírus atenuado: este é o tipo de vacina mais comum, que usa um vírus selecionado e atenuado até perder sua capacidade de desenvolver a doença. Ao injetar o imunizante no organismo, ele irá reconhecer o vírus, desenvolver anticorpos e células de memória. “Ou seja, a maioria das pessoas, pelo resto da vida, não irá mais desenvolver essa doença”, diz Bourg.
Usada no combate de doenças como: caxumba, sarampo e rubéola

Vírus – ou proteína – inativado: esses imunizantes usam partes de vírus mortos para estimular o sistema imune a reconhecer as ameaças. “É possível produzir, em laboratório, pequenos pedaços idênticos ao vírus ou a bactéria. Esses pedaços são reconhecidos pelo corpo do imunizado como sendo antígenos, ou seja, invasores do meu corpo, ao pé da letra”, explica o professor de biologia.
Usada no combate de doenças como: hepatite B, HPV e coqueluche

Vetor viral: na produção deste tipo de vacina é utilizado um vírus diferente. “É tirado o DNA do vírus patogênico [que provoca doenças] e colocado outro vírus que não causa nada, mas é, também, uma estimulação”, diz Bourg.
Usada no combate de doenças como: ebola e Covid-19 (Oxford-AstraZeneca)
Simulação de molécula de DNA
Pixabay
Além destas três principais, as vacinas genéticas, feitas a partir do DNA e RNA, indicam um avanço na ciência em termos de desenvolvimento de imunizantes e no combate de doenças como o zika vírus e até mesmo o câncer. 👩‍🔬🧪
“Apesar de recentes, foram aprovadas e são consideradas seguras por vários órgãos governamentais”, afirma o professor Bourg sobre as vacinas genéticas.
As vacinas de RNA, em especial, já estão ao alcance, apesar de a tecnologia usada ser relativamente nova: a Pfizer, fabricante de um dos imunizantes utilizado no combate a Covid-19, usa este composto ativo. Não é à toa que o tema rendeu questão no 2º dia do Enem 2023.
Enem 2023: correção da questão de Biologia sobre vacina da Covid-19
💉🧬 As vacinas de RNA
O RNA é um tipo de ácido nucleico, uma molécula polimérica linear formada por unidades menores chamadas nucleótidos. Ele influencia em várias funções biológicas, dentre elas, a síntese de proteínas.
Essa molécula atua como intermediária na síntese proteína porque é ela que garante que as informações presentes no DNA sejam traduzidas em proteínas. Na produção de vacinas, essa função é bastante promissora.
“Quando você injeta esse RNA mensageiro, as nossas células têm capacidade de absorver esse RNA e produzir a proteína daquela mensagem, ou seja: vou produzir a proteína do próprio vírus ou bactéria”, explica o professor Bourg.
Existe a possibilidade que o organismo não reconheça a proteína produzida, mas isso, segundo o professor de biologia, não gera dano algum, pois não absorvemos o RNA mensageiro. “O corpo vai produzir a proteína e, depois de um tempo, o próprio corpo vai desmontar esse RNA universal”, diz.
Ou seja: mesmo com a perda da informação “traduzida” pelo RNA, o organismo ainda produz anticorpos e células de memórias contra as proteínas do vírus ou bactéria infecciosa. Mas qual a grande inovação deste tipo de vacina em comparação aos outros?
Tecnologia que usa RNA mensageiro tem revolucionado as vacinas.
TV Globo/Reprodução
Inovação no RNA
O professor Bourg explica que essa técnica permite maior agilidade nos processos de produção.
“É muito demorado encontrar formas seguras e eficientes de desenvolver um vírus atenuado, de matar um vírus e ter certeza que ele está morto ou de achar, no sequenciamento genético de um vírus, a proteína exata que estimula o nosso processo imune”, afirma.
🔬 Além disso, é possível produzir vacinas de RNA para testes com poucas informações, representando uma esperança no combate de possíveis surtos de doenças globais como o que tivemos em 2020. “Como um RNA é universal, já que todos nós temos, é mais fácil e muito mais seguro produzir dentro do meu organismo do que colocar uma partícula viral”, diz Bourg.
Essa rapidez é útil também para combater mutações da doença, algo que também aconteceu na pandemia do Coronavírus, como aponta o professor de biologia. “Se tenho essa tecnologia pronta, a velocidade de transformação e de modificar essa vacina para essa nova cepa do vírus é muito fácil. Então, é uma vacina bem promissora”.
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