Dentistas investigados por atuar como médicos têm perfis nas redes sociais desativados; dois são suspeitos de deformar rostos de pacientes


Para a polícia, os dentistas usavam seus perfis na internet para mostrar os resultados das cirurgias e, assim, atrair mais clientes. Todos respondem por ações cíveis de reparação por danos estéticos ou exercício ilegal da medicina. Dentistas Humberto Lino de Andrade (lado esquedo superior), Hellen Kacia Matias da Silva (direito superior), Ana Clara Franco (esquerdo inferior) e Igor Leonardo Soares Nascimento (direito inferior) são investigados por realizar procedimentos estéticos autorizados apenas para médicos
Reprodução / Redes Sociais
Foram suspensos, por ordem da Justiça, os perfis nas redes sociais dos quatro dentistas investigados por exercerem ilegalmente a profissão de médico na Grande Goiânia (veja abaixo quem são eles). Segundo a Polícia Civil, todos faziam cirurgias estéticas proibidas pelo Conselho Federal de Odontologia e usavam as redes para divulgar isso. Dois dos dentistas investigados também são suspeitos de deformar rostos de pacientes.
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O g1 tentou contato por mensagens de texto com as defesas dos quatro dentistas, mas não houve resposta até a última atualização desta reportagem.
De acordo com a polícia, entre os procedimentos realizados pelos investigados estão: alectomia (redução da asa nasal); blefaroplastia (retirada do excesso de pele da região das pálpebras); otoplastia (fechamento das orelhas); e a rinoplastia (redução do tamanho, formato ou aspecto do nariz).
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Segundo a delegada do caso, Débora Melo, os dentistas usavam seus perfis na internet para mostrar os resultados das cirurgias e, assim, atrair mais clientes.
“Nessas redes sociais ficou muito claro a realização das cirurgias indevidas e a captação de clientes para serem submetidos a essas cirurgias. É uma cadeia enorme de profissionais envolvidos na realização de procedimentos que podem expor a risco a saúde dos consumidores”, afirmou a delegada.
Elielma Carvalho, paciente de um dos dentistas, perdeu parte do nariz depois de uma cirurgia de afinamento malsucedida, em junho de 2020. Desde então ela precisa usar um alargador nas narinas para conseguir respirar, já fez 17 cirurgias reparadoras e ainda aguarda Justiça.
Antes e depois de cirurgia no nariz de Elielma Carvalho Braga, em Aparecida de Goiânia, Goiás
Elielma Carvalho/Arquivo Pessoal
Pelo menos 15 vítimas
Os perfis saíram do ar na quarta-feira (22), data em que a Polícia Civil também cumpriu mandados de busca e apreensão nas clínicas em que os dentistas atuam. Todo o material apreendido será analisado e deve ajudar a polícia a conseguir provas contra os quatro dentistas.
Por enquanto, sabe-se da existência de pelo menos 15 vítimas dos quatro profissionais. Isso porque, segundo a delegada, todos respondem por ações cíveis de reparação por danos estéticos ou exercício ilegal da medicina. Mas, esse número pode aumentar.
Após a análise do material apreendido, a polícia poderá solicitar à Justiça a prisão dos dentistas e até a perda do registro profissional deles, caso haja necessidade.
Cursos
Fora isso, alguns dos dentistas também são suspeitos de ministrar cursos que ensinavam outros profissionais da saúde a realizarem atividades estéticas indevidas. Segundo a delegada, a divulgação dos cursos também era feita pelas redes sociais.
“O mais grave é que algumas dessas pessoas que foram alvo da ação policial ministram cursos para outros profissionais da saúde realizarem os procedimentos faciais. Ou seja, além de promoverem procedimentos que não são autorizados, elas ainda têm ensinado outros profissionais a realizarem os mesmos procedimentos”, disse a delegada.
Procedimentos realizados por um dos dentistas investigados em Goiás e divulgado na internet
Reprodução/ Redes Sociais
Veja quem são os quatro dentistas investigados:
Ana Clara Franco: já teve o registro suspenso cautelarmente pelo Conselho Regional de Odontologia de Goiás (CRO-GO), por realizar procedimentos estéticos não autorizados. Possui dois processos éticos ativos, além de duas investigações junto ao Ministério Público de Goiás, por exercício ilegal da profissão de médico.
Igor Leonardo Soares Nascimento: está suspenso da profissão por decisão da Justiça desde 16 de maio de 2023. Em reportagem feita pelo g1, a paciente Elielma Carvalho denunciou que teve o nariz deformado após um procedimento estético executado por ele.
Hellen Kacia Matias da Silva: foi condenada em processo de indenização por ter causado danos a pacientes (deformação no nariz), após exercer prática proibida a cirurgiões-dentistas. Já foi suspensa cautelarmente pelo CRO-GO e possui, 5 processos éticos em andamento. Nas redes sociais, Hellen afirma ter criado um método que, na prática, é uma plástica exclusiva da medicina.
Humberto Lino de Andrade: responde a processo judicial (TJ-GO) pelo exercício ilegal da medicina. Possui investigações em andamento no Ministério Público de Goiás referentes ao exercício ilegal da medicina. Já teve registro suspenso cautelarmente.
Em nota, o Conselho Regional de Odontologia de Goiás (CRO-GO) informou que entre os dentistas citados somente Igor Leonardo está suspenso, por determinação da Justiça. Hellen Kacia, Humberto e Ana Clara Franco seguem com registro profissional ativo (veja comunicado completo ao final da reportagem).
Saiba quais são as cirurgias estéticas que dentistas não podem fazer
De acordo com o regulamento do Conselho Federal de Odontologia (CFO), cirurgiões dentistas podem realizar procedimentos estéticos, desde que não extrapole sua área anatômica de atuação, que vai da garganta até o limite superior nasal, entre as sobrancelhas e limita-se, na região da entrada do canal auditivo.
“Os conselhos profissionais de odontologia e medicina dizem que algumas cirurgias só podem ser performadas por cirurgiões plásticos, ou seja, profissionais formados em medicina com residência médica em cirurgia plástica”, explica a delegada.
“Não é que cirurgiões-dentistas não podem realizar atos de harmonização orofacial. Eles podem, mas existe uma limitação técnica, que é expressamente dita nas resoluções dos conselhos”, resume a delegada do caso.
Conforme a Resolução 230/2020, editada em 2020, é proibido aos profissionais dentistas a realização de procedimentos cirúrgicos na face, tais como: alectomia; blefaroplastia; cirurgia de castanares ou lifting de sobrancelhas; otoplastia; rinoplastia; e ritidoplastia ou face lifting.
Também está fora da área de atuação dos profissionais a realização de procedimentos como a micropigmentação de sobrancelhas e lábios; maquiagem definitiva; design de sobrancelhas; remoção de tatuagens faciais e de pescoço; rejuvenescimento de colo e mãos; e tratamento de calvície e outras aplicações capilares.
Íntegra nota do Conselho Regional de Odontologia de Goiás
“O Conselho Regional de Odontologia de Goiás (CROGO) informa que foi oficiado pela Polícia Civil de Goiás e prestou esclarecimentos sobre os limites de atuação dos cirurgiões-dentistas. No entanto, não tem informações sobre a operação policial realizada nesta quarta-feira (22/11/2023).
O CROGO informa, ainda, que entre os cirurgiões dentistas citados em reportagens, Hellen Kacia Matias da Silva, Humberto Lino de Andrade, Ana Clara Franco seguem com registro profissional ativo junto ao Conselho Regional de Odontologia de Goiás. Já Igor Leonardo Soares Nascimento está suspenso, por determinação da Justiça.
Todas informações veiculadas publicamente hoje foram repassadas à Unidade de Fiscalização para que sejam tomadas as medidas cabíveis.”
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