Animal raro: ‘Víbora do Pantanal’ sobrevive a incêndio na Transpantaneira e é resgatada por voluntários em MT


O animal é considerado raro pois tem hábitos solitários e é de difícil visualização, sendo descrita na década de 1950 como específico do Pantanal, segundo a coordenadora do Grupo De Resgate De Animais Em Desastres (Grad). Animal foi encontrado durante uma buscas em locais onde o fogo ocorreu
Um lagarto da espécie dracaena paraguayensis, conhecido popularmente como “Víbora do Pantanal”, foi resgatado por uma equipe Grupo De Resgate De Animais Em Desastres (Grad), nessa quarta-feira (22), na região da Transpantaneira, em Poconé, a 104 km de Cuiabá, após os incêndios no município terem diminuindo.
A víbora foi localizada pelos voluntários durante uma busca ativa, em conjunto com os brigadistas, quando eles procuravam alguns animais para resgate em áreas onde o fogo percorreu. Ela foi encontrada sem ferimentos, mas com visíveis sinais de cansaço.
FOTOS: imagens mostram comparativo de incêndios no Pantanal em 2023 com pior período de focos de fogo em 2020
Ao g1, a coordenadora do Grad, Carla Sássi, disse que o animal é considerado raro, já que possui hábitos solitários e é de difícil visualização, sendo descrita na década de 1950 como específico do Pantanal.
“A víbora é um lagarto semiaquático, que se alimenta de moluscos. Não é fácil ver ele por ser um animal tímido, que foge ao menor sinal de ameaça ou se mantém imóvel e camuflado na vegetação. Infelizmente é uma espécie pouco estudada”, disse.
O lagarto da espécie ‘dracaena paraguayensis’, é conhecido popularmente como Víbora do Pantanal
Amanda Perobell
A coordenadora informou que o animal ficou em observação por 24h até que fosse realocado em um lugar seguro e afastado do fogo, nessa quinta-feira (23).
“Ela foi encontrada saudável, apesar de estar em uma área totalmente já degradada pelo fogo, então nossa equipe realizou o resgate. O animal estava bem, tanto que bebeu bastante água e se alimentou”, explicou.
O animal é considerado raro porque não é comum de ser avistado
Amanda Perobell
‘Víbora do Pantanal’
Nos lagos, lagoas, brejos e pântanos pantaneiros vive a misteriosa e enigmática víbora do pantanal (Dracaena paraguayensis). O animal ultrapassa 4,5 quilos e chega a medir 1,2 metro. Tem nome de cobra, mas não é cobra. Parece um jacaré, mas não é um jacaré.
De acordo com o pesquisador, Thiago Silva-Soares, do Projeto Herpeto Capixaba e do Instituto de Biodiversidade Neotropical, o nome científico do lagarto, Dracaena paraguayensis, é uma homenagem à bacia do Rio Paraguai e não ao país em si.
Víbora-do-pantanal é um dos maiores lagartos do Brasil
Rafael Albo_vibora
É verdade que a víbora-do-pantanal tem dentes, mas eles são usados para quebrar conchas para encontrar caramujos, que são o principal alimento da espécie.
“Que esse animal é venenoso, isso sim é uma crendice, um mito. Ele possui dentes sim, mas não possui presas específicas inoculadoras de veneno, tampouco glândulas de veneno associadas às presas, é inofensivo aos humanos nesse sentido”, diz o pesquisador.
Outros resgates
Cobra foi tratada com emergência e encaminhada para a base da Ampara Silvestre
Ainda na região da Transpantaneira, no Parque Encontro das Águas, três sucuris foram resgatadas pelo grupo voluntário de resgate, no dia 14 deste mês. De acordo com o Grad, duas delas estavam aptas para realocação e a outra foi tratada com emergência e encaminhada para a base da Ampara Silvestre, nessa quinta-feira (23).
Carla Sássi contou que a cobra encaminhada para o Projeto Ampara estava muito ferida, pois sofreu queimaduras de segundo grau e teve 30% do corpo queimado. No local, a sucuri recebeu medicação e tratamento veterinário.
“Já foram várias serpentes resgatadas queimadas e realocadas, que estavam saudáveis, mas essa última resgatada estava muito queimada. De imediato, ela já recebeu os primeiros socorros, medicação, principalmente para dor, hidratação na pele onde tinham as lesões que são muito doloridas e já foi encaminhada para a base do Ampara”, concluiu.
Sucuri teve 30% do corpo queimado e queimaduras de 2° grau
Reprodução
Entenda o incêndio
Segundo o satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), há o registro de dois focos na mesma região
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
Os incêndios atingem o Pantanal há mais de 30 dias e avançaram pelo Parque do Pantanal e Encontro das Águas e chegaram à rodovia Transpantaneira, a principal via de acesso ao bioma em Mato Grosso, que liga Poconé, a 104 km de Cuiabá, a Porto Jofre, na divisa com Mato Grosso do Sul.
Somente nos primeiros 15 dias de novembro foram 3.024 focos, o pior registro para o mês na série histórica desde 2002, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A série tem dados desde 1998.
Fogo toma conta da BR-262 e surpreende motoristas
O governo de Mato Grosso publicou um decreto de emergência ambiental que reforça as ações de combate aos incêndios no Pantanal. No dia 12 deste mês, o governo federal enviou mais 90 brigadistas para combater os incêndios.
Em Mato Grosso do Sul, o fogo avançou pela BR-262. Um vídeo gravado de dentro de um carro mostra as chamas consumindo a vegetação às margens da estrada e a fumaça invadindo a pista, impedindo a passagem segura dos condutores.
Nas imagens, é possível ver que o motorista ficou com visibilidade mínima ao passar por parte do incêndio, no qual se formou um verdadeiro “corredor de fogo”.
Até o momento, foram registrados mais de 3 mil focos de incêndio
Já em Mato Grosso, a preocupação das equipes é o fogo na rodovia Transpantaneira, que é cercada de casas, fazendas e pousadas. Na última quinta-feira (16), hóspedes e brigadistas alocados nessas áreas precisaram sair às pressas.
Com 150 km de extensão, a Transpantaneira cruza a maior planície alagável do planeta e é conhecida por ser um atrativo turístico da região.
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Por que o Pantanal está queimando?
Bombeiro trabalha para conter as chamas em Paconé (MT), na região do Pantanal, nesta quarta-feira (15).
Andre Penner/AP
Pouca chuva e os efeitos do El Niño explicam o recorde de focos de fogo em pleno período chuvoso, que vai de outubro a março, segundo especialistas. De acordo com o meteorologista Guilherme Borges existem regiões isoladas em que não se pode atribuir a culpa dos incêndios à ação humana.
“As pancadas de chuva na região não acumulam valores significativos e geralmente estão acompanhadas por raios. Quando esses raios atingem o solo e entram em contato com a vegetação já muito seca, favorecem a ocorrência de queimadas. Outro fator importante são os ventos, que ajudam a espalhar o fogo com mais facilidade”, explica.
Guilherme ainda destaca que este ano é marcado pelo fenômeno El Niño, caracterizado por deixar a massa de ar mais seca sobre a parte central do país.
Fogo no Pantanal
Gabs /g1
Assim, as temperaturas tendem a ficar mais elevadas, enquanto a chuva ocorre de maneira irregular, em pancadas associadas ao forte calor, sem acumular valores significativos que possam combater os focos de incêndio.
O coordenador de inteligência territorial do Instituto Centro de Vida (ICV), Vinícius Silgueiro, disse ao g1 que a situação atual dos incêndios, neste mês, é um claro indicativo das mudanças climáticas em curso. Segundo ele, os dados revelam a redução dos períodos de chuva, agravada este ano pelo fenômeno El Niño, resultando em um significativo aumento de temperatura.
“Essa situação do bioma pantaneiro mato-grossense dos incêndios faz com que Poconé seja o município líder em área queimada em todo estado de Mato Grosso. Mais de 15% do município já foi queimado”, disse.
Martim-pescador pousa em árvore queimada em Porto Jofre (MT)
Rogério Florentino/AFP
O bioma
O Pantanal abriga uma diversidade única, incluindo várias espécies ameaçadas, ao todo são:
🌱3,5 mil espécies de plantas
🐟325 espécies de peixes
🐸53 espécies de anfíbios
🐊98 espécies de répteis
🦜656 espécies de aves
🐆159 tipos de mamíferos
Onça-pintada, jacaré, tuiuiú, ipês, jacarandás e entre outros integrantes representam o Pantanal. Além disso, ele atua como regulador natural de enchentes, porque absorve e armazena água durante períodos chuvosos.
O Pantanal também funciona como um reservatório de água doce com altitudes que alcançam 150 metros. Seus recursos hidrológicos são importantes para o abastecimento das cidades, onde vivem aproximadamente 3 milhões de pessoas, no Brasil, Bolívia e Paraguai.
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