A histórica Novembrada: o dia em que Florianópolis se levantou em 1979

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Cidade tradicionalmente pacata e sem histórico de grandes protestos e manifestações públicas, Florianópolis foi escolhida para ajudar a impulsionar o projeto que pretendia tornar mais simpática à população a figura do presidente João Baptista Figueiredo, empossado em março de 1979 e cuja personalidade estava resumida na frase “prendo e arrebento”, que usava com frequência.

No entanto, pouco mais de sete meses após assumir a estratégia desmoronou justamente quando o primeiro mandatário da nação visitou a capital catarinense com a notícia de que o governo federal estava disposto a investir recursos em obras de infraestrutura reclamadas pelo Estado.

Em meio a multidão, Figueiredo toma café no Senadinho, ao lado do ex-governador Jorge Konder Bornhausen

Figueiredo tomando café no Senadinho, ao lado do ex-governador Jorge Konder Bornhausen – Foto: James Tavares/Divulgação/ND

O que seria uma consagração virou drama para o regime militar, que já estava desgastado por conta da inflação elevada e da resistência à flexibilização e ao retorno da democracia. O dia 30 de novembro daquele ano foi marcado por uma mobilização sem precedentes na cidade e apressou, na visão de muitos observadores e analistas políticos, o fim de um ciclo que se iniciara com o golpe de 1964.

Xingamentos e palavras de ordem ecoaram quando o presidente apareceu na sacada da sede do governo, no atual Palácio Cruz e Sousa, em frente à praça 15 de Novembro, área central de Florianópolis. O episódio completa 44 anos esta semana e entrou para a História com o nome de Novembrada.

Ainda hoje, os estudantes que foram o estopim do confronto se sentem protagonistas não apenas de uma manifestação que contou com o pleno apoio da população da cidade, mas de uma guinada que levou o regime a soltar as amarras e bater em retirada, ainda que de forma gradual.

“Havia um grande descontentamento, não só pela fome e pela carestia, mas porque o presidente Figueiredo era uma pessoa grosseira que dizia preferir o cheiro de cavalo ao cheiro do povo”, diz Rosângela Koerich de Souza, uma das universitárias presas e processadas por causa dos protestos. “O país parecia uma grande panela de pressão”, conta ela.

A mobilização foi capitaneada pelo Diretório Central dos Estudantes da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que estava, como era comum no movimento de resistência ao regime, dividido entre os militantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro), então na ilegalidade, e o grupo pró-PT, que apoiava as bandeiras do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, que vinha organizando um novo partido no ABC paulista.

Os demais presos foram Adolfo Dias, Amilton Alexandre, o Mosquito (ambos já falecidos), Geraldo Pereira Barbosa, Lígia Giovanella, Newton Vasconcellos e Marize Lippel. “Após um longo debate que antecedeu o dia da Novembrada, o movimento pró-PT venceu a ala mais comedida e comandou o protesto, trazendo estudantes em peso da UFSC para o Centro da cidade”, conta Rosângela Koerich.

Novembrada: das bandeirinhas aos xingamentos e safanões

O desembarque do presidente Figueiredo no aeroporto Hercílio Luz indicava que o dia seria só de alegrias, pois a recepção contava com centenas de pessoas com balões e bandeirinhas louvando o dote de conciliador do militar que sucedera a Ernesto Geisel no Planalto – e, além do mais, o roteiro terminaria com um lauto churrasco em Palhoça, na Grande Florianópolis. No caminho para o Centro, mulheres bateram panelas, mas aquilo podia ser o resultado de descontentamentos pontuais.

Policiais contém manifestantes durante protesto na Novembrada

Policiais contém manifestantes que, conforme o SNI, “não chegavam a 40” – Foto: Arquivo Agecom/UFSC/Divulgação/ND

Contudo, a insatisfação era mais profunda e cerca de 3 mil pessoas se acotovelavam na frente do palácio e na praça central quando o governador Jorge Konder Bornhausen apareceu na sacada com o presidente. Eles não esconderam muito bem os copos de uísque com que confraternizavam o encontro, e o povo não perdoou. Além disso, Figueiredo fez um sinal sugerindo que as vaias partiam de uma minoria entre os presentes na aglomeração.

“O governador bancou a ida de Figueiredo à sacada, mesmo com o clima hostil”, recorda Rosângela Koerich, hoje advogada em Florianópolis. Quando os estudantes saíram em peso da rua Tenente Silveira, se depararam com colegas do ensino médio que haviam sido liberados pelas escolas para engrossar o coro de apoio ao governo. Servidores públicos também tiveram autorização para deixar as repartições e ir até a região da catedral e da praça para prestigiar o evento.

Quando o presidente reagiu aos xingamentos e desceu, à revelia de alguns assessores, a rua de paralelepípedos virou uma praça de guerra. Foram empurrões, safanões e a frase de Figueiredo de que não admitia ofensas à sua mãe. A confusão foi sendo empurrada para a rua Felipe Schmidt, onde pareceu amainar com o cafezinho que Figueiredo tomou no Senadinho, mas depois foi reavivada com violência, lojas invadidas e um tapa que atingiu o então ministro das Minas e Energia, Cesar Cals.

Na praça central, populares arrancaram uma placa que seria inaugurada homenageando Floriano Peixoto, o presidente republicano que mandou matar figuras eminentes da cidade do Desterro, antigo nome de Florianópolis, durante a Revolução Federalista, em 1894.

Novembrada: a estudante presa que foi ao protesto contra a vontade

A advogada Rosângela Koerich de Souza era muito envolvida com o movimento estudantil, mas não estava disposta a ir à manifestação de 30 de novembro de 1979. Chegou ao Tribunal de Justiça, onda trabalhava, e descobriu que o presidente da casa também havia autorizado os funcionários a deixar o expediente daquela manhã.

Multidão em meio a protesto contra a ditadura

Aspecto do protesto que reuniu milhares de pessoas em ato contra a ditadura – Foto: James Tavares/Divulgação/ND

“Eu estava em estágio probatório e tinha medo de ser prejudicada caso fosse ao protesto”, relata. A estratégia dos universitários do DCE e dos jovens da UCE (União Catarinense de Estudantes) era clara, mas não foi divulgada, por causa das divisões internas do movimento – cerca de 150 alunos de diferentes cursos ajudaram a planejar os atos na cidade.

A intensa panfletagem que antecedeu aos confrontos deu resultado. A nota distribuída nas ruas não era explosiva, mas reforçava um slogan já disseminado que dizia “chega de sofrer, o povo quer comer”, conclamando a população a protestar contra a fome, a falta de liberdades e os preços galopantes dos alimentos, gás de cozinha, tarifas públicas e combustíveis.

“Havia denúncias de que pessoas matavam ratos para comer e a crise refletia a política recessiva determinada pelo FMI (Fundo Monetário Internacional)”, conta a advogada.

Na época, a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) se envolveram a fundo na defesa dos direitos humanos, atacados pela ação da repressão à oposição ao regime, incluindo a morte de militantes de esquerda, jornalistas e advogados.

Rosângela lembra de tudo com orgulho e diz que continua militando. Formada em 1981, pediu demissão do Tribunal de Justiça dois anos depois e foi advogar em Criciúma, junto a sindicatos de trabalhadores, para depois voltar à Capital e abrir seu próprio escritório. “A militância é uma opção de luta e de vida”, afirma.

No dia da Novembrada, lembra de ter sido chamada ao gabinete do presidente do TJ/SC, João de Borba (já falecido), junto com uma colega que também tinha ido à manifestação. Ele trancou a porta à chave, e Rosângela esperou pelo pior. No entanto, o magistrado deu um abraço nas duas e disse: “Amo vocês”. Era um sinal de aprovação pelo que fizeram em frente ao palácio.

Depois de um longo processo, enquadrados que foram na Lei de Segurança Nacional, os estudantes foram libertados e cada um seguiu seu caminho. Rosângela lamenta apenas que os torturadores dos anos 60 e 70 foram anistiados, o que considera “um crime contra a democracia”.

Filmes mostram bastidores da Novembrada e as motivações do evento

Tirando os dois que já morreram, os demais presos no dia 30 de novembro de 1979 continuam comprometidos com os ideais daquele grupo de estudantes inconformados com a falta de liberdades. Geraldo Barbosa é formado em Ciências Sociais e virou professor na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Unisul, Univali e Cesusc.

Marize Lippel se graduou em Farmácia e Bioquímica e trabalhou nos setores público e privado, incluindo a Vigilância Sanitária, sempre em funções relacionadas à busca de qualidade de vida para a população. “Sempre amei o que fiz”, diz ela. Lígia Giovanella é médica (atua na Fiocruz, no Rio de Janeiro), assim como Newton Vasconcellos.

Filha de Geraldo Barbosa, Kamila Harger produziu um documentário sobre a Novembrada em 2022. É um média metragem de 28 minutos que ouviu alguns dos presos sobre o momento político do país no momento do episódio.

O filme “Encontros da Novembrada”, realizado com recursos da Lei Aldir Blanc, está disponível no YouTube. Agora, o projeto é da diretora é produzir uma minissérie sobre a Operação Barriga Verde, que foi de 1975 a 1977 e interrogou e torturou dezenas de opositores ao regime militar em Santa Catarina.

No documentário de Kamila Harger, os depoimentos reforçam o ambiente de degradação da qualidade de vida das famílias no final da ditadura – “era o maior arrocho da história do país”, segundo Geraldo Barbosa – e os dilemas dos presos pela Polícia Federal, em ação que alcançou os estudantes mais ativos no DCE da UFSC na época.

Um filme marcante sobre o tema é “Novembrada”, feito em 1998 por Eduardo Paredes. O curta-metragem de 20 minutos tem Lima Duarte no elenco (no papel do presidente Figueiredo) e ganhou os prêmios de melhor direção de arte, melhor filme pelo júri popular e o Prêmio Canal Brasil no Festival de Gramado no mesmo ano de sua produção.

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